segunda-feira, 9 de março de 2015

O livro “Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, de Leandro Narloch, é uma joia. Brasileiros de muitas idades e formações irão se surpreender com um conteúdo útil, interessante e transformador.

O título do livro pode levar a uma ideia muito errada a respeito de seu conteúdo. É fácil, devido ao contexto atual, ter em mente que a proposta é puramente humorística e até oportunista. A capa pode fazer alguns acreditarem tratar-se de um livro que contará acontecimentos engraçados no decorrer da história do Brasil. Confesso que essa foi a minha enganosa primeira impressão.

Isso deve ter ocorrido, pois a expressão “politicamente incorreto” tem sido exaustivamente comentada nos tempos atuais. Humoristas e pessoas ativas na mídia constantemente fazem uso dela para justificar e defender seus métodos de trabalho, assegurar seu direito e liberdade de expressão.

Esse tipo de situação pode até nos levar a acreditar que o autor aproveitou-se de um momento muito oportuno para tratar desse assunto e ter um sucesso garantido, empurrando seu conteúdo. Entretanto, julgo essa obra excelente e falarei dos motivos.

Ao iniciar a leitura você já percebe que o autor não tem intenção de soar engraçado, mas sim fornecer um conhecimento histórico rico e honesto. A proposta do livro é apresentada e logo cumprida: desmistificar a visão romântica da história do Brasil e escancarar muitas verdades omitidas desde a época do descobrimento. Leandro Narloch inverte o ângulo analítico dos fatos históricos colocando o leitor de frente a mazelas de mocinhos e atos humanitários de vilões. Precisamos encarar a honestidade do conteúdo mencionada com cuidado, me refiro aqui a fugir do que chamamos de tendencioso.

A narrativa corre leve e te insere em um contexto muito simples, onde afirmações como “Zumbi tinha escravos”, “Os portugueses ensinaram os índios a preservar a floresta”, “Quem mais matou índios foram os próprios índios” fazem muito sentido. O leitor é convidado, às vezes, a apenas colocar o seu raciocínio lógico para funcionar e concluir que muita informação lhe foi omitida dos livros e sua educação vem sendo manipulada desde muito cedo. Fica claro que muitas das visões que temos nos foram condicionadas pela tendenciosa educação que imputa-nos ignorância e preconceitos há séculos. Existe um mar de acontecimentos e documentos históricos que contrariam muito a história aprendida na escola, não seria mais honesto também dar voz a eles?

É importante ter cuidado ao ler o livro e não se embriagar com o próprio veneno. O seu conteúdo não deve ser promovido a uma nova verdade límpida, distante de falhas ou impassível das mesmas críticas que os próprios argumentos utilizam. Em muitos momentos as fontes utilizadas são poucas ou inexistentes. A joia mencionada no início do artigo é estar em contato com muitas informações que contrariam todo o embasamento histórico que a maioria esmagadora possui, porém um leitor desatento pode simplesmente ser o mesmo manipulado de sempre, ao invés de ter seu senso crítico aprimorado.

A boa notícia ao encerrar o livro é que existem mais vários outros volumes que, pra mim, se tornou leitura obrigatória. Indico o livro a todos que não tem medo de explorar vários lados de uma história e abalar sua estrutura de conhecimento sobre o Brasil. Vale encerrar comentando que o livro não tem pudor nenhum em “enfiar o dedo nos olhos” de orgulhos nacionais como o samba e personalidades como Aleijadinho e Santos Dummont. Porém o benefício maior dessa leitura deve ser o aguçamento da sua capacidade analítica, te mostrando a obrigatoriedade de avaliar sempre mais de um lado de uma mesma história, ainda que esta esteja em quase 100% dos livros que você estudou na escola.

Calebe Ribeiro.



terça-feira, 10 de fevereiro de 2015


O que leva uma pessoa a ler uma centena de livros em um ano? Os motivos são cultura, conhecimento e, entre outros, entretenimento. Se estiver motivado pura e simplesmente em se entreter com a literatura, é até aceitável. Se há amor por leitura, tempo disponível e paixão por romances, talvez seja bem melhor mesmo ler centenas de livros. Ainda assim, alguns argumentos poderiam empoeirar um pouco a beleza dessa ideia.

Tenho a impressão de que uma estante cheia de livros, uma lista vasta de leitura, um perfil no skoob abarrotado de resenhas e leituras marcadas, seja, em muitos casos, apenas uma questão de “ostentação literária”: ostentar a quantidade de livros que leu – ou fingiu que leu. Mesmo quem realmente leu 250 livros no ano, é tentado a exibir seus números, vangloriar-se por isso, como instrumento de status entre amigos.

A questão é: será que houve real absorção? Será que foi-se a fundo em todos os livros lidos? Não estou criticando leitores de muitos livros, mas sim aquele tipo de afirmação que nos é dita: “é preciso ler, pelo menos, 50 livros por ano”. O número de livros varia, mas a minha discordância com essa afirmação permanece.

Um bom livro pode tornar-se um diamante para o cérebro. Mas um leitor que faz aquela leitura apressada, com uma ânsia por encerrar o livro e prontamente informar a sociedade que leu mais um livro, provavelmente não absorveu toda a preciosidade que a obra tem para oferecer. Não estou julgando a capacidade cognitiva de ninguém, mas, falando de minhas habilidades particulares, uma leitura apressada não me trará 1% de aproveitamento.

É muito melhor ler poucas obras de qualidade, alimentando-se de sua fonte, anotando suas ideias, descobrindo o significado de novas palavras, lendo e relendo capítulos inteiros diversas vezes, resumindo partes marcantes, produzindo textos com base no que aprendeu... Do que ler uma centena de livros e ao final do ano concluir que todos foram compreendidos apenas superficialmente e que, ainda, o potencial que você tinha para se transformar por meio de cada livro foi jogado fora.

Leia menos se for preciso, mas leia com um caderno e um lápis na mão. Diminua seu plano de leitura caso convenha, mas mantenha um dicionário todas as vezes que estiver lendo para não subaproveitar o aprendizado. Volte páginas diversas vezes se necessário, mesmo que isso sacrifique a sua meta de 20 livros nesse mês. Escreva o mesmo texto com suas palavras, não se sinta obrigado a finalizar logo esse livro.

Nós precisamos mais do que certificados, mais do que livros, mais do que números. Nós precisamos de conhecimento. Dê a cada livro o tempo que ele merece de você e obtenha dele o melhor retorno possível. Tenha uma meta de conhecimento, emoção e diversão, e deixe de lado sua egoísta ostentação literária.

Calebe Ribeiro.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015


Existe uma sociedade cantando em alta voz pela transformação do mundo: “Jovens, saiam de casa e mudem o mundo!”. Infelizmente grande parte dessa massa motivada ainda não se perguntou: “O que é mundo?”.

Jovens tentados por serpentes, ou apenas ignorantes, são convidados a lutar por um mundo diferente. Mas será que eles sabem o que levou o lugar que vivem a chegar onde está? Assim milita uma massa vigorosa, que tenta levar-nos de nada para lugar nenhum.

Um mar de adultos exige opiniões formadas de gente que anteontem usava fraldas, estratégias de guerra de quem ainda sente o gosto da chupeta na boca. É inquestionável o potencial do jovem, mas se ele tiver um pseudoconhecimento pode se tornar apenas um torpedo que explodirá em algum lugar de um mundo transformado. Infelizmente esse jovem não sabe ao certo que mundo surgirá das cinzas.

Só há transformação a partir do conhecimento, qualquer mudança que não se baseie no saber trará resultados indiferentes. Esse tipo de luta apenas sugará a força do jovem, que circundará o mundo para chegar no mesmo lugar onde estava.

Um mundo transformado e evoluído só será alcançado quando o coral da sociedade afinar as vozes para a canção do conhecimento. Só pedimos a Deus que o amor permeie essa luta rumo à sabedoria.

Calebe Ribeiro.

Leitura indicada: O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota, Olavo de Carvalho

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Em uma entrevista concedida a revista Rolling Stone, Stephen King explica os motivos pelos quais não gosta da versão de Stanley Kubrick para o cinema de seu livro "O Iluminado".


"Ao longo dos anos, você sempre criticou o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick. Fica surpreso com o culto construído ao redor do longa?

Eu não entendo. Mas há muitas coisas que não entendo. As pessoas obviamente adoram o filme, e não compreendem por que eu não gosto. O livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo. No livro, existe um verdadeiro arco em que você vê este sujeito, Jack Torrance, tentando ser bom, mas que, pouco a pouco, vai se tornando maluco. E, quando assisti ao filme, Jack era louco desde a primeira cena. Tive que ficar com a boca fechada na época. Era uma exibição antecipada, e Jack Nicholson estava presente. Mas fiquei pensando comigo mesmo, no momento em que ele apareceu na tela: “Ah, eu conheço esse cara. Eu já o vi em cinco filmes de motoqueiro, em que Jack Nicholson fazia o mesmo papel”. E é tão misógino. Quero dizer, Wendy Torrance simplesmente é apresentada como uma dona de casa que não para de berrar. Mas essa é só a minha opinião, é só o jeito como eu sou."
por Andy Greene Revista Rolling Stone.

Não há alguém melhor que o próprio autor para lembrar-nos: assistir o Iluminado é se entreter com uma boa obra, mas muito distante dos sentimentos de seu livro. Existem dois Jacks diferentes no  livro e no filme. Podemos dizer que quem assiste o filme após ter lido o livro não tem a sensação de que eles são o mesmo personagem.

Não podemos dizer o mesmo de O Clube da Luta escrito por Chuck Palahniuk. A essência dos personagens é magistralmente bem captada e repassada pelo diretor David Fincher aos espectadores. A aura do livro e do filme tem uma ótima sintonia.

Deixamos aqui a sugestão de leitura de O Iluminado do gênio Stephen King. O trabalho impecável realizado nesse livro é digno de ser lido e relido. Arrisco dizer que até mesmo pessoas, que não se julgam fãs de horror, ainda irão se apaixonar por essa obra.

Calebe Ribeiro.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015



A infância é amiga dos sonhos e os sonhos são queridos das crianças. Os pequeninos olham para baixo e enxergam mais do que chão, erguem os olhos e vislumbram mais do que o céu.

Sem intenção, crianças tem o poder de nos cativar por infinitos motivos. Elas fazem com que enxerguemos nós mesmos e perguntemos: "O que aconteceu?".

Em que momento da vida deixei escapar a minha infância?
Em qual rua da vida ficou a criança que um dia fui? 
Quais eram mesmo os meus sonhos de pequenino?

Os infinitos de um menino podem ser muito maiores que os meus. Uma menininha indefesa pode ter pensamentos muito mais altos, universos com mais estrelas e mundos alternativos, que eu, adulto, não sou capaz de inventar.

Isso me faz lembrar uma pequena falante com energia que um dia também tive para "dar e vender". Correndo pela casa, brincando com o controle remoto da TV... A pequena é feita de sorrisos dos protagonistas e dos espectadores.

Sempre sorrisos, embora nem sempre contente - ou talvez sim. Pequena falante - de voz e de imaginação. Os pensamentos saltam de sua mente, exteriorizam pelo ar e alcançam lugares já esquecidos - não por ela, por mim.

Assim como ontem, ela se surpreende olhando para o céu e ali pode ver novamente: um avião que carrega tudo e todos. O avião também leva seu coração, sua alma, seus sonhos. Debruçada sobre qualquer coisa, ela está onde quer e sente saudade. A saudade muitas vezes é pura e simplesmente amor.

A rota é a mesma... e o avião? Para ela, sim.

Por instantes, a menina voa com ele e chama por alguém:

- Desça, minha amiga! Venha brincar brincar comigo!

Todos os aviões do mundo carregam sua amiga que mora distante. Essa amiga é "tudo".

As respostas que chegam da realidade para a menininha não são tão belas como as pequenas sementinhas que florescem em sua fértil mente. O avião rasga o céu até ela o perder de vista, o pássaro voador não pousa, a amiga não chega.

As respostas da realidade não importam tanto, amanhã o avião passará novamente e ela estará ali no mesmo lugar. Deixará seus brinquedos de lado, olhará o horizonte e esperará por aquele grande objeto que carrega suas vontades.

Os sonhos de criança podem se tornar gigantes mesmo morando em um coração tão pequeno.

A amizade também viaja no avião, todos eles são como um só: todos carregam sempre sua saudade e sua infância.

-Paraquedas!

Existem meios, ela sabe.

Calebe Ribeiro.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Imagem: freepik

De que forma você convidou o ano que despontou? As festividades dessa época às vezes elevam o nosso espírito as alturas e esse clima nos remete a um grito mais otimista que o teto da realidade:

“Apertem os cintos, ajeitem-se nas poltronas e aproveitem o voo pelo ano de 2015”.

Para sermos honestos - sem deixar o otimismo de lado - precisamos convidar o Ano Novo de uma maneira diferente. A forma que convidamos o ano é crucial para que seja bom de verdade.

Vamos arriscar um brado diferente:

“Afie a sua espada, vista a sua armadura e continue lutando.”

Eu desejo a todos nós fé, força e coragem. Nesse barco, a maioria de nós não estará apenas aproveitando a vista e chegando a grandes destinos. Estaremos na verdade remando, remando e remando.

Lutaremos contra as ondas, contra nossas próprias fraquezas, mas não deixaremos de aproveitar também a vista, e muito menos deixaremos de alçar objetivos e vencer batalhas.

Uma boa luta a todos nós!

Calebe Ribeiro.


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014


Você provavelmente já conhece Augustus Waters, o personagem de John Green popularizado com o sucesso do livro, e posteriormente filme, "A Culpa é das Estrelas". Mas você conhece Terry Fox? Vamos falar um pouco sobre um ser humano super especial, que compartilha de semelhanças com Gus.

Augustus é um jovem bem humorado que gosta de vídeo games, livros e música. Quando mais novo, jogava basquete, até ser diagnosticado com câncer e precisar amputar a perna, passando a usar uma prótese.
O esquecimento é o seu maior medo, e seu desejo é ser lembrado não como mais uma vítima da guerra contra o câncer.

Algumas das características de Augustus se aproximam muito de Terry Fox. E isso até nos leva a desconfiar que serviram de inspiração para John Green construir seu personagem.

Terry nasceu em julho de 1958, no Canadá. Desde muito jovem sempre foi ativo, um grande amante do mundo dos esportes. Seus caminhos eram de sucesso, mas infelizmente ele recebeu um diagnóstico: osteossarcoma na perna direita. Terry tinha apenas 18 anos.

Osteossarcoma é mesmo câncer que acometeu Augustus Waters e o fez perder a perna, no romance de John Green.

Maratona da Esperança

Comovido com o sofrimento dos jovens com o mesmo câncer, Terry decidiu fazer um movimento para angariar fundos para lutar contra a doença: atravessar a pé o Canadá. Essa empreitada foi denominada de “Maratona da Esperança” e ocorreu em 1980, com a intenção de alertar sobre a necessidade de encontrar cura para a doença.

Terry Fox percorreu 5.000 km, mas infelizmente teve que interromper a corrida no meio do caminho. Seu câncer progrediu, atingindo também os pulmões, o impossibilitando de continuar seu percurso. A Maratona da Esperança arrecadou 360 milhões de dólares canadenses para pesquisas sobre o tratamento do câncer.

Herói Nacional

Falecido em 1981, Terry foi proclamado como um herói nacional; além de ter sido escolhido, através de uma pesquisa, como o canadense mais famoso do século XX e o segundo na lista dos Maiores Canadenses de Sempre. Após o grande exemplo do jovem, a “Maratona da Esperança” ficou conhecida como “Corrida Terry Fox”, em sua homenagem. Atualmente, apenas no Canadá, são organizadas mais de 4 mil corridas, além de em vários países do mundo.

Fundação Terry Fox

A Fundação Terry Fox foi criada em seu nome e segue promovendo diversas iniciativas para angariação de fundos, entre elas, as maratonas. Cientistas são financiados por meio de bolsas, para garantir o desenvolvimento de estudos sobre o transplante de medula óssea e cânceres.

Empreendedor de esperança

Terry empreendeu algo grandioso mesmo doente. E, apesar de ter morrido muito jovem, legou-nos o seu sonho, que concretiza-se dedicando o total angariado da fundação exclusivamente à investigação científica em oncologia.

Na trama de John Green, Augustus manifestava a sua vontade de deixar sua marca no mundo e assim foi exatamente com Terry Fox. Exemplos como o dele nos levam a perguntar: “Qual o legado que deixaremos para o mundo?”- Nem que a definição de mundo seja apenas algumas pessoas que te rodeiam ou os filhos que você um dia terá.

Terry Fox nunca desistiu e mesmo após a morte foi vitorioso, afinal, a morte não é sinônimo de derrota - não pra quem tem o coração generoso o suficiente.


Texto de Calebe Ribeiro e Joice Rocha